Terça-feira, 15 de Maio de 2007

A ameaça

Nos tempos mais recentes tem-se levantado uma onda de preocupação pelos perigos que correrá a chamada liberdade de imprensa. Invocam-se fundamentos vários, que vão dos poderes da ERC , passam pelo Estatuto do Jornalista, pela Lei da Concentração, pela Lei da Televisão, pela intervenção dos assessores do governo no caso Sócrates e continuam no recente episódio da escolha de Pina Moura para a Media Capital. Sintetiza-se e dá-se de barato o já legendário controlo da RTP pelo governo, argumento transversal a todos os regimes e conjunturas.

Vasco Pulido Valente, com a prosápia que o caracteriza, tem sido um dos paladinos deste levantamento. Em crónica recente no Público, que pode ser lida na íntegra aqui, volta novamente à carga. Caindo num radicalismo absurdo, eleva a actividade jornalística a um patamar quase sagrado. Em nome da liberdade, não deve nem pode o Estado intervir na regulação dessa actividade, nem que seja através de uma entidade independente dos vários poderes públicos. Assim, deverá passar incólume o designado jornalismo de sarjeta, expressão que por agora serve para classificar determinado tipo de práticas. E se candidamente afirma que em Portugal não existe jornalismo de sarjeta (manifesta distracção do cronista), logo parece admitir a sua existência no país (todavia menos sórdido).

Esta respeitável democracia vai criando os seus mitos. Os jornalistas produzem conteúdos informativos para os órgãos de comunicação social. O regime não sobrevive sem uma informação livre mas passará saudavelmente sem a lixeira em que se transformaram muitos desses órgãos de comunicação social. A profissão de jornalista não pode ser declarada inimputável. Para isso já temos o mau exemplo dos juízes. Devem ser punidos os que não cumprem os seus deveres deontológicos, tal como acontece com outros profissionais que exercem funções indispensáveis à democracia e à sociedade. Afinal quem legitima o poder dos media são essencialmente os grandes grupos económicos. Os cidadãos não escolhem os jornais que querem ler. Se o mercado funcionasse nesta actividade económica, muitos jornais, televisões e rádios já teriam encerrado. Tal não acontece porque interesses não declarados assumem anos consecutivos de prejuízos. Esta obscura artificialidade é que me preocupa verdadeiramente.

Não sinto a liberdade de imprensa nem mais nem menos ameaçada com este governo. Vasco Pulido Valente continuará a escrever as suas crónicas para o Público e nós iremos continuar a lê-las, até ao dia em que Belmiro de Azevedo se aborrecer de sustentar aquela gracinha e decidir acabar com o jornal, desfecho que não está ao alcance nem do governo nem da ERC. No fundo, o que este movimento de alarmismo vazio acaba por proporcionar é a proclamação de um estatuto de menoridade moral, ética e intelectual da classe dos jornalistas e dos patrões dos media, ao fim e ao cabo, na opinião dos seus seguidores, desprovidos de qualquer força de carácter para resistir a uma qualquer pressão ou putativa ameaça. E acaba por demonstrar igualmente uma grande desconfiança nesta coisa da democracia.


(clicar para ler o artigo na íntegra)
publicado por Luis Euripo às 20:31
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

O quarto do poder

A informação que se vai fazendo em Portugal, sobretudo a televisiva, deixa-me incomodado. A guerra das audiências, a todos os níveis, transformou os serviços noticiosos em verdadeiros reality shows. Ora explorando até à náusea as tragédias que vão ocorrendo, ora arvorando-se em juízes/justiceiros de uma causa para a qual ninguém lhes passou procuração. Perante o comportamento generalizado da comunicação social, que nos melhores momentos raia o patético, interrogo-me onde irá parar este poder. A imprensa dita de referência não escapa a este síndrome. É sobretudo especulativa, preguiçosa, vaidosa e pouco factual. Por vezes, noto a insídia de interesses obscuros que conduzem determinadas campanhas, sejam eles económicos ou políticos. Os jornalistas parecem-me meros assalariados que se atropelam na procura de algo que os destaque. Tentam sobreviver.

Estas notas são um mero desabafo. Eu bem sei que as criticas devem ser fundamentadas com factos. Propositadamente não o farei, imitando assim o estilo dominante na comunicação social, do género "os políticos são incompetentes", "os autarcas são corruptos", "o Ronaldo é o melhor do mundo", "há muitos raptos de crianças em Portugal", "vai na cabeça de sicrano", "beltrano vai ser constituído arguido daqui a dois meses", e por aí fora.

Quando alguns sectores políticos nos procuram convencer de que a liberdade de imprensa se encontra ameaçada em Portugal, e por força da acção deste governo em particular, pergunto quem defende a sociedade e os cidadãos do poder muito pouco democrático da comunicação social.

Nota: honra às excepções, que sempre as há.
publicado por Luis Euripo às 22:38
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